segunda-feira, março 07, 2011

A bolha brasileira


O que a farra fiscal de Lula e o ajuste de Dilma tem que ver com o meu côco?


Visto de cima, o Rio de Janeiro de São Sebastião segue impávido em seu reinado supremo dentre as mais belas paisagens naturais do planeta. Da janela do 767-300, o amanhecer multicolor deste domingo na Cidade Maravilhosa me faz lembrar os quadros de Romero Britto e as enormes sacolas de compras que vi circulando pelos shoppings e pelo aeroporto internacional de uma Miami lotada de brasileiros.

Retornar a casa é sempre uma alegria. Despir-me de sobretudos e cachecóis, deixar para trás o vento cortante e a paisagem árida do inverno em Washington-DC e mergulhar no calor úmido com cheiro de maresia e sol alaranjado das praias da Zona Sul carioca é como viver o sonho de Alice: “vontade zero” de deixar o País das Maravilhas e pegar o vôo de volta aos domínios de Tio Sam no próximo sábado à noite.

Desfrutando cores, cheiros e sabores da minha terra, nem percebo quando Edilson, baiano de Vitória da Conquista com 30 anos de Rio, encosta seu Meriva estalando de novo – comprado em 50 suaves prestações – na porta do hotel, e já vai esticando o braço para trás com meu recibo em mãos: 65 dólares pela corrida do Galeão à Ipanema ??!! Acho caro. Muito caro…

São 08h30min da manhã, mas o calor é senegalesco. Enfrento um check-in demorado que lembraria uma daquelas filas do INPS das antigas, povoadas de velinhos desvalidos e burocratas carrancudos, não fosse pelo concierge de ares europeus metido em um engomado traje preto de botões dourados. Antonio me recebe com um sorriso de chinês e gentileza britânica, desculpando-se pela demora e justificando-se na superlotação: 98% de ocupação em toda a rede, com diárias de apartamento tipo standard a 350 dólares, pagas adiantado.

Entro esbaforido no quarto simplesinho e agarro a água mineral colocada sobre a pia do banheiro. Mato a sede em quatro generosos goles, mas sofro um forte engasgo já no finalzinho: a etiqueta tipo “colarinho” marca incríveis 19,00 reais por 200 ml de Acqua Panna em garrafa de plástica.

Chinelo, bermuda, camiseta. 2 minutos mais e aqui estou, 22 andares abaixo, do outro lado na rua, em pé no calçadão, tratando de selecionar o côco mais gelado disponível no quiosque do Seu Milton – um vascaíno fanático com quem trato de manter relações cordiais apesar da enorme Cruz de Malta que decora “do chão ao teto” seu micro-estabelecimento. Sou vítima de um assalto: R$ 3,50 por um côco ainda meio verde. Na qualidade de operador monopolista da cadeia de suprimento das tais bolotas verdes para a rede hoteleira da vizinhança, Seu Milton logo avisa que “lá dentro, à beira da piscina, doítore, a coisa não sai por menos de 9 pratas”.

Sacolas de compra aos borbotões, hotéis de quartos amarelados superlotados, água mineral à preço de vinho francês, corridas de táxi equivalentes à passagens de avião em companhias “low-cost” e côco gelado à preços de refeição executiva? Como não estou em Londres, a ficha cai rápido e o óbvio ululante se instala: a bolha brasileira está evidente.

Desde que saí daqui, em maio de 2008, o real se valorizou quase 30% em relação ao dólar. Para um diferencial de inflação acumulada entre Brasil e EUA em torno de 5%, dá 25% ao ano em termos reais. O efeito adverso do câmbio sobrevalorizado não fez nem cosquinha no desempenho das exportações brasileiras, impulsionadas por bilhões de chineses que seguem indo às compras, sustentando o ciclo positivo nos preços das principais commodities internacionais mesmo depois da crise.

O jornal da manhã desta terça-feira anuncia que o COPOM puxou a taxa básica SELIC ainda mais para cima – agora em 11,75% em termos nominais – para conter o repique inflacionário dos dois últimos meses. Suspeito do efeito pretendido: com o BNDES subsidiando a taxa para o investimento produtivo das empresas (pelo lado da oferta) e generosidade do crédito consignado tratando viabilizar o encaixe de novas parcelas de financiamento no orçamento doméstico das classes C e D (pelo lado da demanda); o ritmo do crescimento não arrefece. Com 6,3% dos 7,5% de incremento no PIB de 2010 explicados pelo consumo das famílias, o Governo vai precisando, na margem, de cada vez mais taxa para cumprir com o esforço de re-calibrar as expectativas futuras e manter a inflação na meta.

Com carne na mesa, carro zero na garagem e eletro-domésticos renovados na cozinha (agora no mais moderno padrão aço-inox); a nova classe média deixa de sonhar com o “puxadinho” e volta a fazer às contas com um olho na sala ampla e ventilada - para acomodar as novas polegadas da TV de tela plana - e outro na casa própria. Em dois anos, o preço médio para aluguéis de imóveis nas principais capitais brasileiras experimentou estratosféricos 95% de elevação (88% no Recife, 97% em São Paulo, 157% no Rio de Janeiro). No Estado de São Paulo, os novos lançamentos de unidades residenciais de dois quartos incrementaram-se em 28% no último mês de novembro de 2010, se comparados com o mesmo mês do ano anterior (dados do SECOVI-SP).

Se os preços sobem demais por aqui, cartões de crédito internacionais vão de passeio à Miami em oito suaves prestações, ou desfrutam os prazeres do consumo globalizado via Internet: entre 2009 e 2010, o gasto total de brasileiros no Exterior aumentou 28% em dólares. No mesmo período, a relação produto nacional/produto importado na cesta de consumo da classe média saltou de 80%-20% para 68%-32% !! Quem assistiu desorientado a débâcle da economia mexicana em 1982 sabe à que fenômeno de miopia coletiva me refiro: pelo lado da economia real, a bolha segue inflando-se, soprada pelo consumo das famílias, transbordando para os preços dos ativos reais.

Pelo lado do "papelório", a taxa básica de juros em trajetória lunar segue tonificando como nunca a entrada de capitais financeiros interessados nos ganhos de operações de arbitragem entre juros pagos pela moeda brasileira e as taxas internacionais bem mais modestas. Com os “T-Bonds” yankees (títulos do Tesouro americano com maturidade de 30 anos) na marca dos 119,05 pontos – um dos "vales" mais profundos da série história nos últimos cinco anos – somam-se aos costumeiros capitais privados (“hedge funds, “pension funds” e toda uma miríade de veículos de investimento “off-market”), os poderosos “fundos soberanos”. Os espetaculares ganhos projetados com operações lastreadas em títulos do Tesouro Nacional – ainda que os contratos de “cupom cambial” para as operações de "carry trade" não sigam tão atrativos quanto antes – explicam, ao menos em parte, uma Bovespa barata (pouco abaixo dos 70.000 pontos), mesmo em tempos de IPOs bilionários, crescimento do PIB corrente acima dos 5% ao ano e Eike Batista (de celular na cintura...) na capa da Forbes.

Vale lembrar que, se por um lado é certo que o influxo de capitais voláteis ajuda a fechar o balanço de pagamentos e sua esterilização – quando feita de modo competente – reforça as reservas internacionais do Banco Central; por outro amplia o risco da parada súbita (“sudden-stop”) e da reversão dos fluxos, em caso de mudanças no cenário externo e/ou da perda de confiança nos fundamentos do equilíbrio fiscal doméstico. Além disto, os influxos encurtam o perfil da dívida pública federal externa (DPFex), impõem um enorme custo adicional sobre a rolagem da dívida pública interna (16,65 bilhões em dezembro ultimo, quase 30% do ajuste fiscal de R$ 50 bilhões, recentemente anunciado pelo Governo), comprometendo de modo ainda mais severo a capacidade de investimento do Governo Federal. Impactam ainda formação de preços nos mercados de câmbio para exportação, na direção de uma taxa nada atrativa para os produtores nacionais especializados em commodities, manufaturas simples e produtos industriais semi-acabados, que enfrentam um padrão de competição internacional baseada primordialmente “em preços”.

Como em todas as bolhas também sopradas desde afora; por ora, tudo segue bem no setor externo. Com o “pibão” de 7,5% em 2010, é natural que a relação Dívida/PIB (principal indicador que orienta a avaliação dos investidores internacionais sobre a capacidade de re-pagamento de obrigações internacionais de um país emergente) siga sua trajetória em queda livre. Todavia, o tsunami financeiro que atingiu cinco das principais economias emergentes do continente asiático (Indonésia, Malásia, Filipinas, Coréia do Sul e Tailândia) no fim dos anos 90 ajuda a lembrar que todo o cuidado é pouco em matéria de financiamento externo. Em um período de apenas 11 meses, os então celebrados “novos tigres asiáticos” experimentaram uma reversão da ordem de 105 bilhões de dólares em capitais privados voláteis por conta de desequilíbrios no setor doméstico.

A compatibilização entre equilíbrio interno e externo não é tarefa que se deixe para depois: pelo lado do papelório, a bolha segue inflando-se, soprada pelo influxo de capitais financeiros de curto-prazo.

Nada disto seria tão grave se, no âmbito doméstico, ao crescimento do produto corrente correspondesse equivalente incremento do produto potencial. Mas ocorre o reverso: a formação bruta de capital (FBK) segue estagnada ao redor de 20% com crescimento discreto tanto do investimento público (4,1% em 2009 para 5,1% em 2010, puxados pelas empresas estatais) quanto do privado (12,5% em 2009 para 13,6% em 2010). Se, durante muitos anos, o montante de 25% PIB de investimento total para um crescimento desejado de 5% ao anao foi o número cabalístico presente em nove em cada dez cartas de conjuntura assinadas por economistas estrelados, o novo “pibão” requereria, no mínimo, algo em torno de 30% para sustentar-se no médio prazo. Em que pese o corte de 50 bilhões anunciado pelo Governo, o número segue sendo um miragem distante: seria necessário um esforço fiscal oito vezes maior, impensável sem a retomada da agenda de reformas estruturantes que afetem as chamadas” despesas incompressíveis” (privilégios fiscais e tributários adquiridos, pensões generosas e gastos vinculados), ao estilo daquelas  implementadas no primeiro Governo FHC.

O que era cinza torna-se negro, quando se observa com cuidado os números relativos à produtividade total dos fatores (PTF). Desde o ajuste industrial dos anos 90, a PTF vem “andando de lado” (com pequenas elevações e contrações ao redor de 0,3%-0,6%), sem contribuições incrementais relevantes para um aumento do estoque líquido de capital disponível. Vai se, portanto, produzindo um padrão de crescimento adicto de enormes somas de novos capitais públicos (de modo geral, indisponíveis), privados (sempre escassos) e/ou externos (por natureza desconfiados) para realizar novos investimentos em capacidade produtiva e em infra-estrutura que dêem conta da elevada absorção interna.

Em resumo, o Governo está metido em uma armadilha onde o conjunto de preços básicos da economia (a saber; juros, salários e aluguéis – para além da taxa de câmbio) que remuneram os fatores produtivos renováveis (a saber; capital, trabalho e propriedade imóvel) seguem aumentando de modo sensível e desordenado, descolando-se dos fundamentos microeconômicos que lançariam as bases de um crescimento acelerado e sustentado. O resultado imediato é um crescimento espúrio (por arriscado) e episódico (por insustentável) como o atual, baseado em “fazer mais”, e não em “fazer melhor”.

A boa noticia é que a nascente “bolha brasileira” ainda não foi securitizada, o que ampliaria seu potencial explosivo ao ritmo do multiplicador bancário. Tampouco se trata de uma bolha financeiro-imobiliária acabada (como o sub-prime Americano ou o “crédito-sem-fim” irlandês), uma vez que a migração das poupanças para ativos reais é – ainda – incipiente. O lado ruim é que há gente demais tratando de soprá-la sem considerar que a produtividade total (pelo lado da oferta) e a renda média das famílias depois da tributação e do consumo (pelo lado da demanda) não estão acompanhando o ritmo da festa.

O desafio fundamental a ser enfrentado pelo Governo permanece o mesmo de sempre: é possível crescer de modo sustentável e de maneira acelerada sem aumento da poupança e da produtividade?

A resposta também segue sendo a mesma: sem avanços relevantes na produtividade total dos fatores (única fonte que permitira lograr a expansão contínua do produto potencial sem deterioração fiscal adicional), e no nível de popança das famílias (que permite sustentar a demanda agregada no longo prazo) tudo acaba em “vôo de galinha” ou; ainda pior, em “estouro da bolha”.

O orgulho coletivo impulsionado pela propaganda oficial grandiloqüente em torno do pré-sal, da Copa do Mundo e das Olimpíadas não deve ofuscar a reais fontes dos recentes anos de bons ventos econômicos que o país tem atravessado: a forte demanda externa pelas commodities brasileiras e a elevada liquidez internacional. De fato, a maré subiu para todos. E o "barco Brasil"subiu junto…

Ainda que em seus primórdios de formação, um bolha de preços não é coisa com a qual se brinque. O re-pagamento do socorro oferecido pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional ao Tesouro irlandês custar-lhes-á 15% do PIB à preços correntes pelos próximos 20 anos. As reparações pagas pela Alemanha nazista ao final da 2a. Guerra Mundial saíram mais baratas: 7% do PIB alemão à preços de hoje.

Passado o Carnaval, cabe despir-nos das fantasias e adereços, deixar de lado a vuvuzela - definitivamente incorporada ao blocos de rua do Carnaval carioca - e voltar a considerar com seriedade os desafios microeconômicos da economia brasileira e a necessidade imperiosa de retomar as reformas estruturantes (abandonadas ao fim dos anos 90) para garantir um crescimento seguro e duradouro ao longo da década.

É onde o novo Governo deve investir seu capital político. Todo o resto é "perfumaria"…