sexta-feira, abril 18, 2008

Subprime for "Dummies"

A crise americana se alastra. Joselito é o mordomo da vez...

No começo dos anos 90, Joselito comprou um apartamento por 300.000 dólares financiado em 30 anos. Em 2006, o apartamento do Joselito passou a valer 1,1 milhão de dólares. Aí, um banco perguntou pro Joselito se ele não queria uma grana emprestada, algo como 800.000 dólares, dando seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e pegou os 800.000 dólares.

Vendo que imóveis não paravam de valorizar, Joselito comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. A diferença - os outros 400.000 dólares que Joselito recebeu do banco - ele comprometeu: comprou carro novo (alemão), deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou TV de plasma de 636 polegadas, 43 notebooks, 1634 cuecas. Tudo financiado, tudo à crédito. A esposa do Joselito, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão.

Em agosto de 2007, começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas para as quais Joselito tinha pago a entrada e ainda estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham liquidez. O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil ? Todo mundo teve a mesma idéia ao mesmo tempo. As taxas que Joselito pagava começaram a subir (as taxas eram pós fixadas) e o Joselito percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre.

Milhões tiveram a mesma idéia de Joselito. Tinha casa pra vender como nunca. Joselito foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou como milhões de compatriotas para revender. Mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da TV de plasma e do cartão de crédito.

As casas que Joselito comprou para revender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela. Só que neste momento Joselito achava que já teria revendido as 3 casas, mas não havia compradores ou os que havia só pagariam um preço muito menor que aquele que Joselito tinha pago na compra. Joselito se danou. Começou por não pagar aos bancos as hipotecas da casa que morava, bem como das 3 casas que havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Joselito.

Joselito optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Joselito entregou aos bancos as 3 casas que comprou como investimento perdendo tudo que tinha investido. Joselito quebrou.

Milhões de Joselitos deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Joselitos em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência em massa dos Joselitos, esses títulos passaram a valer nada. Viraram "pó". Bilhões e bilhões em títulos disseminados por todo o mercado - principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.

Os imóveis eram garantias dos empréstimos, mas tais empréstimos foram feitos com base no preço de mercado de cada imóvel, e tal preço que despencou. Um empréstimo baseado em um imóvel avaliado em 500.000 dólares subitamente passou a valer 300.000 dólares e mesmo ao preço de 300.000 não havia compradores...

Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A inadimplência dos milhões de Joselitos atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil um dia acaba. Acabou.

Com a inadimplência dos milhões de Joselitos, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Joselitos pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado. O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir.

O FED começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED injetou bilhões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo porém essas ações levam meses para surtir efeitos práticos. Essas ações são corretas e - até agora - não é possível afirmar que os EUA estão tecnicamente em recessão.

O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que, em meados de março, o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, correntistas correndo parasacar suas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu quebrado.

No domingo retrasado o FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear Stearns, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. O Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por ação. Há um ano elas valiam 160 dólares. Durante as últimas semana dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre quebra de bancos. A bola da vez seria o Lehman Brothers, um bancão. O mercado e as pessoas seguem sem saber o que nos espera na próxima segunda-feira.

Joselito hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo dirá onde irá parar.