domingo, maio 28, 2006

Eleições 2006: 10 verdades sobre a escolha tucana

A grande imprensa tem oferecido destaque cotidiano ao processo de escolha do candidato tucano a Presidência da República. Em que pese o esforço de uma cobertura imparcial e equilibrada, é empresa fácil identificar simpatias e fidelidades entre os principais articulistas e jornalistas especializados e uma curiosa homogeneidade no viés das análises.

Tal homogeneidade talvez justifique-se no esquecimento de que a ação política fundada em uma estratégia competitiva é, sobretudo, um movimento diversionista. Entre palavras e acenos oferecidos com o propósito deliberado de produzir sinais trocados, é preciso desvelar certas verdades e recalibrar expectativas relativas ao timing e resultado da escolha tucana.

E o que me proponho a fazer nos dez argumentos que seguem:

1. O “atraso” na escolha do candidato tucano não tem efeito algum sobre a competição eleitoral no longo prazo. Escolhido o candidato, este poderia transformar o monólogo governista em contraditório eleitoral. Mas a ansiedade partilhada pelas bases tucanas - e alimentada pela cobertura da imprensa especializada - pode causar mais prejuízos que qualquer atraso na fulanização das alternativas peessedebistas. O descolamento do presidente Lula nos números de intenção na pesquisa de opinião nada mais é que um deslocamento transitório das preferências de eleitores entre os candidatos. Nada a ver com o processo de incorporação de indecisos – o número de eleitores que se mantém sem candidato continua no mesmo patamar nos últimos 6 meses. Por esta razão, tal descolamento pode ser perfeitamente revertido, quando estiver efetivamente instalada a competição eleitoral. Cabe lembrar que o PSDB tem por tradição “decidir por último” e não deveria abrir mão da vantagem competitiva de adotar uma estratégia seguidora, quando esta é – na fase de pré-campanha – a estratégia recomendada para o partido que “lidera” a posição contestadora. Aqui vale a máxima de José Maria Alckmin: “o tempo da política é a política. Tenha o tempo o tamanho que for”

2. O “atraso” na escolha do candidato tucano têm efeito negativo sobre as pré-candidaturas com menor grau de exposição, conhecimento e/ou recall. Pré-candidaturas que experimentam níveis de conhecimento, intenção e rejeição baixos precisam de 2 ingredientes básicos para revelarem-se ao eleitorado: tempo e paciência. Há ainda outra uma razão para um decisão tão mais cedo quanto possível: se após a escolha houver feridas à cicatrizar, o tempo é sempre o melhor remédio.

3. A “hesitação” de Serra é uma estratégia protelatória com fins competitivos internos. Nada tem a ver com a competição eleitoral ou com a união partido. Se Serra é favorito inequívoco, cabendo-lhe somente manifestar-se interessado, porque o PSDB – ou mesmo o prefeito - ainda não tomou sua decisão ? O motivador central seria a desvantagem competitiva já experimentada em disputar uma eleição nacional sem o uníssono do PSDB. Todavia, o passar do tempo concorre para o aumento da divergência interna, não para o seu amansamento. A aposta serrista é a de que a indefinição e o tempo contribuam para fixar o recall em torno de seu nome e estagnar o crescimento de uma pré-candidatura que vêm de trás e tem limites para revelar-se antes da definição formal. Atrasar a definição é atrasar o debate. Atrasar o debate é manter o último embate na cabeça do eleitor.

4. Não há “divisão” entre serristas e alckmistas no interior do partido. O pretenso apoio da cúpula a pré-candidatura do prefeito de São Paulo não resiste a uma contabilidade cuidadosa das fidelidades na Executiva Nacional, ou mesmo a uma consulta sincera às bases das partidárias. Em verdade, trata-se de um ensaio de imposição de candidatura tradicional nascida no núcleo fundador do partido– todavia minoritária - em detrimento de uma outra do tipo oposto, todavia amplamente majoritária. Uma “divisão” produz duas metades, não duas secções de tamanho tão diferente.

5. Se Serra apresentar-se como pré-candidato, as prévias virão. Ou qualquer forma de consulta ampliada, onde a maioria possa fazer valer tal “divisão sem duas metades”. Serra condiciona sua candidatura à união do partido não somente porque conhece a experiência de disputar uma eleição sem apoio integral, mas porque sabe fazer contas: em qualquer consulta democrática, em qualquer instância partidária não obterá um resultado favorável. Portanto, como um prócere da racionalidade política, tenderá a não se apresentar para prévias – a exemplo do recuo estratégico adotado no embate prévio com o ex-Governador Mário Covas em 1994. E Geraldo não arredará o pé de competir, uma vez que há muito sua candidatura não mais lhe pertence.

6. A escolha do candidato tucano não ser fará antes da chegada de abril. Fazendo as contas, a imprensa já anunciou 6 datas diferentes para o anúncio do candidato do PSDB. Parece pouco provável que algum anúncio ocorra antes do dia 19 de março, data das prévias do PMDB. A boa aposta é, sem dúvida, o dia 31 de março, data para desincompatibilização dos pré-candidatos.

7. Se vierem as prévias – ou qualquer outro mecanismo de consulta ampliada – Geraldo Alckmin será o escolhido. Geraldo detêm apoio amplo e inequívoco na base de partido. Nas contas atuais de Nova Política: 5 governadores, 8 senadores, 38 deputados federais, 18 diretórios estaduais. Tal amplitude e dimensão de apoio é ainda mais considerável quando toma-se em conta a perspectiva de poder gerada pelos índices de intenção corrente, favoráveis à pré-candidatura contrária.

8. A reunificação do PSDB será mais fácil em torno de Geraldo Alckmin. A reunificação em torno do tucano escolhido é um imperativo da eleição. Tal reunificação será mais fácil em torno de Alckmin, uma vez que conformar a chamada “cúpula” ao resultado que lhe causa surpresa é tarefa bem mais fácil que conformar diretórios estaduais e municipais ao redor do país a um resultado que lhes causaria revolta. Ademais, nas palavras de FHC, “um governo Serra será um governo de Serra. Um governo Geraldo, será um governo do PSDB”.

9. A opção por Geraldo é uma opção “para vencer”. Já escrevi em outras oportunidades porque Alckmin tem o maior potencial de crescimento dentre todos os pré-candidatos, de todos os partidos. Faz-se necessário reconhecer que em todo potencial reside também um risco, há também de dar-se conta de uma evidência empírica: Geraldo é um ganhador de “eleições perdidas”. O desafio do Governador é fazer-se conhecido nacionalmente, em sua primeira (?!) eleição majoritária. Sim, porque em verdade Geraldo Alckmin disputa sua primeira eleição majoritária na casa dos milhões de votos. Geraldo disputou reeleições ao Governo do São Paulo: o eleitorado votante conhecia de antemão seu perfil como Vice-Governador e suas realizações como Governador na ausência de Covas. Ainda sim, este não é um problema intratável: de modo contrário, revela o tremendo impulso que o conhecimento mais amplo (a ser proporcionado pela propaganda eleitoral) poder dar em sua candidatura.

10. A opção Geraldo é uma problema para Lula e Garotinho. Lula e Garotinho compõem o melhor cenário para Geraldo Alckmin. A candidatura de Geraldo é o elemento novo numa eleição que, sem ele, já se viu. Para além da imprevisibilidade trazida pela novidade, a presença de Geraldo na competição amplia o espectro ideológico das alternativas, permitindo aprofundar o contraditório entre Lula e seu avesso natural, polarizando a eleição logo no primeiro turno.