domingo, abril 24, 2005

ARQUIVO DL: Privatização, Sim!. Vale para a Vale, Vale para o Brasil

[ARQUIVO DL é um espaço de memória que pretende recuperar textos escritos por mim já amarelados pelo tempo, que emergem do fundo da gaveta - e da lembrança - para cotejarem-se com o presente em virtude de alguma data comemorativa ou fato relevante que traga de novo à tona tema já esquecido].
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Vez em quando, aquelas mesmas figurinhas carimbadas da política, que povoam nossas piores lembranças de um passado não muito distante resolvem voltar a cena por saudade do calor dos holofotes. O que mais espanta, é que encontram, por ínfima que seja, platéia para lhes dar ouvidos. Este tipo de fenômeno tipicamente tupiniquim faz-nos despertar de um engano, largamente difundido e consagrado em ditado popular: o de que “não se bate em cachorro morto”. E impele àqueles de juízo a recolocar as coisas no seu devido lugar.

Na sexta-feira retrasada, acontecimentos deste tipo vieram perturbar nossos ouvidos. Expressões como “crime de lesa-pátria”, “entrega das riquezas nacionais” e outras bobagens afins remeteram-nos de volta aos tempos do Império, do Brasil Colônia; reinstaurado sem aviso prévio, no pilotis da PUC, por oportunidade do ato público contra a privatização da Vale do Rio Doce. No que pese a atitude elogiável do Diretório Central (que se empenha em prover à todos com carteirinhas garantidoras do nosso cinema de domingo à tarde), melhor seria se tivéssemos sido presenteados com um mimo que nos fosse mais interessante - como um debate, talvez ??? - ou mesmo com um entretenimento menos tedioso, como os célebres panelaços de antigamente.

Todo aquele constrangimento teria sido evitado se o mesmo grau de dedicação e entusiasmo tivesse sido investido no prévio entendimento de conceitos como déficit publico, orçamento do governo, retorno sobre investimento, de noções rudimentares de contabilidade e da história do papel do Estado na economia brasileira nos anos do pós-guerra. Aprendizado de extraordinária utilidade seria este para quem deseja refletir, à sério, acerca de questões como a privatização da Vale; e não queira desfilar por aí repetindo besteiras ouvidas sabe-se lá onde.

Vivemos num país que durante sua história sempre experimentou mudanças extraordinárias, muitas vezes em espasmos até violentos. Mas que sempre também revelou uma esquizofrênica resistência à mudança: numa crítica ao novo por muitas vezes anterior ao entendimento do que o novo verdadeiramente significa. Derivada de uma nostalgia pelo passado e alimentada pelo fins dos privilégios, subsídios e benesses dos quais desfrutou durante décadas, esta resistência costumou - em nossa história recente - transfigurar-se em ressentimento. Um ressentimento que tende a entorpecer as mentes de certas minorias ruidosas; e que explica, ao menos em parte, a sobrevida que “o velho” possui neste país. A resistência destas minorias à privatização da Vale é mais um capítulo desta nostalgia

A sociedade que construiu a Vale foi aquela que nos deu o maior sistema de telefonia da América Latina, a maior hidroelétrica do planeta , um parque industrial variadíssimo, .... e 20 milhões de analfabetos. Por esta e por tantas outras ironias, é preciso reformar a sociedade brasileira, a começar pelo Estado. Na transformação deste tipo de reflexão em ação, a privatização da Vale é só um dos primeiros passos.

A privatização da Vale é importante para própria Vale, que precisa libertar-se das amarras de empresa estatal - para quem é complicado até comprar papel - para ser produtiva e competitiva. Como estatal, tudo é mais difícil para a Vale. Desde compras de equipamentos à decisões de investimento. Se a Vale tem qualquer contribuição a dar para a inserção brasileira no mercado global, ela desempenhará melhor papel no setor privado.

Para o Estado brasileiro, a privatização da Vale é importante porque libera recursos. Não vale dizer que a Vale não pode ser vendida porque dá lucro. A Vale só dá lucro porque o Governo investe quase 10 vezes isto na própria Vale. E o custo destes investimentos é muito mais alto do que o retorno que a Vale dá. Ou seja, a Vale representa uma parcela do patrimônio do Estado Brasileiro que liquidamente não rende nada. Ë essencial que se entenda que não existe nada de ideológico no tocante a privatização. Trata-se de uma simples questão de aritmética. Uma questão de não se ter dinheiro e ponto.

Outra tolice com que fomos brindados, é pensar ser possível através do valor estratégico (???) da Vale entrarmos para o jogo competitivo dos mercados globalizados em condições de igualdade. Um pouco de leitura selecionada seria suficiente para entender que as moedas deste jogo são capital humano e produtividade. Leia-se aí uma infância bem alimentada e assistida, uma juventude educada e adultos capazes de, continuamente, adaptar-se aos desafios de um mundo do trabalho em contínua mutação. Neste jogo, com perdão do trocadilho, a Vale estatizada vale nada.

Tanto barulho e resistência explicam-se num fato: a privatização é uma política do governo que beneficia de modo disperso maiorias silenciosas e tem seus custos concentrados em minorias barulhentas. A Vale deve ser privatizada em benefício meu, de você, da criança da escola pública, do trabalhador do mercado informal. É por isso que a privatização da Vale tem a aprovação da maioria silenciosa de brasileiros comuns.

Há por certo, muito mais poesia em palavras de ordem e bandeiras embaladas pelo vento, em slogan estampados em camisetas e abaixo-assinados destinados a lugar nenhum. Em ações motivadas pela imaturidade de jovens paixões, politicamente aproveitadas por um ressentimento não tão jovem assim. Os ressentidos sempre estarão alerta às oportunidades, e sempre haverá quem as aproveite. Em alguma marcha para Brasília ou num palanque erguido de jovens mal informados. Sair da ribalta é muito difícil para políticos derrotados, artistas ou jogadores de futebol em fim de carreira. Contudo, a privatização da Vale não é assunto que mereça ser tratado com poesia e subjetivismo.

Inevitavelmente - e enquanto durar a reforma do Estado brasileiro - teremos de aprender a conviver com manifestações esporádicas de um nacionalismo getulista velho. Felizmente nas democracias, mesmo a nostalgia ruidosa também é livre. Resta-nos aguardar pacientemente que os fatos - ou quem sabe um breve surto de clarividência - dêem um fim à este tipo de conversa mole.

Teremos de esperar igualmente, pelo fim da utilização maliciosa, ideológica e despropositada da Justiça operada pela vontade de minorias ultrapassadas pela história que resistem em abandonar os vícios de um passado que nos legou atraso econômico, carências sociais e indulgência intelectual

Pouco importa se hoje, amanhã, ou daqui alguns dias ou meses: a súbita emergência deste nacionalismo tacanho, velho e desprovido de bom senso será, com o tempo, superada por uma visão mais moderna de Brasil, um Brasil para todos os brasileiros. Quando este dia chegar - sem trombetas ou palavras de ordem - a tendência secular do país a esperar que seus problemas morram de velhos terá sido deixada para trás, à engrossar aquela mesma nostalgia.

Talvez não se possa pedir aos representantes dos mais diferentes exotismos que povoaram as fileiras das manifestações da Praça Quinze que cheguem às conclusões a que estas reflexões conduzem. Mas só tem o direito a esse álibi confortável quem, por opção de vida, não se acha obrigado a pensar no que diz e no que faz.
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[Escrito originalmente em 22/09/1995 para os boletins "PUC 2000" e "Tempo Econômico. Na ocasião, o autor era Presidente-Fundador do Movimento PUC 2000 - Diretório Central de Estudantes (DCE), Presidente do Centro Acadêmico de Economia (CAECO) e Membro do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)]