Segunda-feira, Março 07, 2011

A bolha brasileira


O que a farra fiscal de Lula e o ajuste de Dilma tem que ver com o meu côco?


Visto de cima, o Rio de Janeiro de São Sebastião segue impávido em seu reinado supremo dentre as mais belas paisagens naturais do planeta. Da janela do 767-300, o amanhecer multicolor deste domingo na Cidade Maravilhosa me faz lembrar os quadros de Romero Britto e as enormes sacolas de compras que vi circulando pelos shoppings e pelo aeroporto internacional de uma Miami lotada de brasileiros.

Retornar a casa é sempre uma alegria. Despir-me de sobretudos e cachecóis, deixar para trás o vento cortante e a paisagem árida do inverno em Washington-DC e mergulhar no calor úmido com cheiro de maresia e sol alaranjado das praias da Zona Sul carioca é como viver o sonho de Alice: “vontade zero” de deixar o País das Maravilhas e pegar o vôo de volta aos domínios de Tio Sam no próximo sábado à noite.

Desfrutando cores, cheiros e sabores da minha terra, nem percebo quando Edilson, baiano de Vitória da Conquista com 30 anos de Rio, encosta seu Meriva estalando de novo – comprado em 50 suaves prestações – na porta do hotel, e já vai esticando o braço para trás com meu recibo em mãos: 65 dólares pela corrida do Galeão à Ipanema ??!! Acho caro. Muito caro…

São 08h30min da manhã, mas o calor é senegalesco. Enfrento um check-in demorado que lembraria uma daquelas filas do INPS das antigas, povoadas de velinhos desvalidos e burocratas carrancudos, não fosse pelo concierge de ares europeus metido em um engomado traje preto de botões dourados. Antonio me recebe com um sorriso de chinês e gentileza britânica, desculpando-se pela demora e justificando-se na superlotação: 98% de ocupação em toda a rede, com diárias de apartamento tipo standard a 350 dólares, pagas adiantado.

Entro esbaforido no quarto simplesinho e agarro a água mineral colocada sobre a pia do banheiro. Mato a sede em quatro generosos goles, mas sofro um forte engasgo já no finalzinho: a etiqueta tipo “colarinho” marca incríveis 19,00 reais por 200 ml de Acqua Panna em garrafa de plástica.

Chinelo, bermuda, camiseta. 2 minutos mais e aqui estou, 22 andares abaixo, do outro lado na rua, em pé no calçadão, tratando de selecionar o côco mais gelado disponível no quiosque do Seu Milton – um vascaíno fanático com quem trato de manter relações cordiais apesar da enorme Cruz de Malta que decora “do chão ao teto” seu micro-estabelecimento. Sou vítima de um assalto: R$ 3,50 por um côco ainda meio verde. Na qualidade de operador monopolista da cadeia de suprimento das tais bolotas verdes para a rede hoteleira da vizinhança, Seu Milton logo avisa que “lá dentro, à beira da piscina, doítore, a coisa não sai por menos de 9 pratas”.

Sacolas de compra aos borbotões, hotéis de quartos amarelados superlotados, água mineral à preço de vinho francês, corridas de táxi equivalentes à passagens de avião em companhias “low-cost” e côco gelado à preços de refeição executiva? Como não estou em Londres, a ficha cai rápido e o óbvio ululante se instala: a bolha brasileira está evidente.

Desde que saí daqui, em maio de 2008, o real se valorizou quase 30% em relação ao dólar. Para um diferencial de inflação acumulada entre Brasil e EUA em torno de 5%, dá 25% ao ano em termos reais. O efeito adverso do câmbio sobrevalorizado não fez nem cosquinha no desempenho das exportações brasileiras, impulsionadas por bilhões de chineses que seguem indo às compras, sustentando o ciclo positivo nos preços das principais commodities internacionais mesmo depois da crise.

O jornal da manhã desta terça-feira anuncia que o COPOM puxou a taxa básica SELIC ainda mais para cima – agora em 11,75% em termos nominais – para conter o repique inflacionário dos dois últimos meses. Suspeito do efeito pretendido: com o BNDES subsidiando a taxa para o investimento produtivo das empresas (pelo lado da oferta) e generosidade do crédito consignado tratando viabilizar o encaixe de novas parcelas de financiamento no orçamento doméstico das classes C e D (pelo lado da demanda); o ritmo do crescimento não arrefece. Com 6,3% dos 7,5% de incremento no PIB de 2010 explicados pelo consumo das famílias, o Governo vai precisando, na margem, de cada vez mais taxa para cumprir com o esforço de re-calibrar as expectativas futuras e manter a inflação na meta.

Com carne na mesa, carro zero na garagem e eletro-domésticos renovados na cozinha (agora no mais moderno padrão aço-inox); a nova classe média deixa de sonhar com o “puxadinho” e volta a fazer às contas com um olho na sala ampla e ventilada - para acomodar as novas polegadas da TV de tela plana - e outro na casa própria. Em dois anos, o preço médio para aluguéis de imóveis nas principais capitais brasileiras experimentou estratosféricos 95% de elevação (88% no Recife, 97% em São Paulo, 157% no Rio de Janeiro). No Estado de São Paulo, os novos lançamentos de unidades residenciais de dois quartos incrementaram-se em 28% no último mês de novembro de 2010, se comparados com o mesmo mês do ano anterior (dados do SECOVI-SP).

Se os preços sobem demais por aqui, cartões de crédito internacionais vão de passeio à Miami em oito suaves prestações, ou desfrutam os prazeres do consumo globalizado via Internet: entre 2009 e 2010, o gasto total de brasileiros no Exterior aumentou 28% em dólares. No mesmo período, a relação produto nacional/produto importado na cesta de consumo da classe média saltou de 80%-20% para 68%-32% !! Quem assistiu desorientado a débâcle da economia mexicana em 1982 sabe à que fenômeno de miopia coletiva me refiro: pelo lado da economia real, a bolha segue inflando-se, soprada pelo consumo das famílias, transbordando para os preços dos ativos reais.

Pelo lado do "papelório", a taxa básica de juros em trajetória lunar segue tonificando como nunca a entrada de capitais financeiros interessados nos ganhos de operações de arbitragem entre juros pagos pela moeda brasileira e as taxas internacionais bem mais modestas. Com os “T-Bonds” yankees (títulos do Tesouro americano com maturidade de 30 anos) na marca dos 119,05 pontos – um dos "vales" mais profundos da série história nos últimos cinco anos – somam-se aos costumeiros capitais privados (“hedge funds, “pension funds” e toda uma miríade de veículos de investimento “off-market”), os poderosos “fundos soberanos”. Os espetaculares ganhos projetados com operações lastreadas em títulos do Tesouro Nacional – ainda que os contratos de “cupom cambial” para as operações de "carry trade" não sigam tão atrativos quanto antes – explicam, ao menos em parte, uma Bovespa barata (pouco abaixo dos 70.000 pontos), mesmo em tempos de IPOs bilionários, crescimento do PIB corrente acima dos 5% ao ano e Eike Batista (de celular na cintura...) na capa da Forbes.

Vale lembrar que, se por um lado é certo que o influxo de capitais voláteis ajuda a fechar o balanço de pagamentos e sua esterilização – quando feita de modo competente – reforça as reservas internacionais do Banco Central; por outro amplia o risco da parada súbita (“sudden-stop”) e da reversão dos fluxos, em caso de mudanças no cenário externo e/ou da perda de confiança nos fundamentos do equilíbrio fiscal doméstico. Além disto, os influxos encurtam o perfil da dívida pública federal externa (DPFex), impõem um enorme custo adicional sobre a rolagem da dívida pública interna (16,65 bilhões em dezembro ultimo, quase 30% do ajuste fiscal de R$ 50 bilhões, recentemente anunciado pelo Governo), comprometendo de modo ainda mais severo a capacidade de investimento do Governo Federal. Impactam ainda formação de preços nos mercados de câmbio para exportação, na direção de uma taxa nada atrativa para os produtores nacionais especializados em commodities, manufaturas simples e produtos industriais semi-acabados, que enfrentam um padrão de competição internacional baseada primordialmente “em preços”.

Como em todas as bolhas também sopradas desde afora; por ora, tudo segue bem no setor externo. Com o “pibão” de 7,5% em 2010, é natural que a relação Dívida/PIB (principal indicador que orienta a avaliação dos investidores internacionais sobre a capacidade de re-pagamento de obrigações internacionais de um país emergente) siga sua trajetória em queda livre. Todavia, o tsunami financeiro que atingiu cinco das principais economias emergentes do continente asiático (Indonésia, Malásia, Filipinas, Coréia do Sul e Tailândia) no fim dos anos 90 ajuda a lembrar que todo o cuidado é pouco em matéria de financiamento externo. Em um período de apenas 11 meses, os então celebrados “novos tigres asiáticos” experimentaram uma reversão da ordem de 105 bilhões de dólares em capitais privados voláteis por conta de desequilíbrios no setor doméstico.

A compatibilização entre equilíbrio interno e externo não é tarefa que se deixe para depois: pelo lado do papelório, a bolha segue inflando-se, soprada pelo influxo de capitais financeiros de curto-prazo.

Nada disto seria tão grave se, no âmbito doméstico, ao crescimento do produto corrente correspondesse equivalente incremento do produto potencial. Mas ocorre o reverso: a formação bruta de capital (FBK) segue estagnada ao redor de 20% com crescimento discreto tanto do investimento público (4,1% em 2009 para 5,1% em 2010, puxados pelas empresas estatais) quanto do privado (12,5% em 2009 para 13,6% em 2010). Se, durante muitos anos, o montante de 25% PIB de investimento total para um crescimento desejado de 5% ao anao foi o número cabalístico presente em nove em cada dez cartas de conjuntura assinadas por economistas estrelados, o novo “pibão” requereria, no mínimo, algo em torno de 30% para sustentar-se no médio prazo. Em que pese o corte de 50 bilhões anunciado pelo Governo, o número segue sendo um miragem distante: seria necessário um esforço fiscal oito vezes maior, impensável sem a retomada da agenda de reformas estruturantes que afetem as chamadas” despesas incompressíveis” (privilégios fiscais e tributários adquiridos, pensões generosas e gastos vinculados), ao estilo daquelas  implementadas no primeiro Governo FHC.

O que era cinza torna-se negro, quando se observa com cuidado os números relativos à produtividade total dos fatores (PTF). Desde o ajuste industrial dos anos 90, a PTF vem “andando de lado” (com pequenas elevações e contrações ao redor de 0,3%-0,6%), sem contribuições incrementais relevantes para um aumento do estoque líquido de capital disponível. Vai se, portanto, produzindo um padrão de crescimento adicto de enormes somas de novos capitais públicos (de modo geral, indisponíveis), privados (sempre escassos) e/ou externos (por natureza desconfiados) para realizar novos investimentos em capacidade produtiva e em infra-estrutura que dêem conta da elevada absorção interna.

Em resumo, o Governo está metido em uma armadilha onde o conjunto de preços básicos da economia (a saber; juros, salários e aluguéis – para além da taxa de câmbio) que remuneram os fatores produtivos renováveis (a saber; capital, trabalho e propriedade imóvel) seguem aumentando de modo sensível e desordenado, descolando-se dos fundamentos microeconômicos que lançariam as bases de um crescimento acelerado e sustentado. O resultado imediato é um crescimento espúrio (por arriscado) e episódico (por insustentável) como o atual, baseado em “fazer mais”, e não em “fazer melhor”.

A boa noticia é que a nascente “bolha brasileira” ainda não foi securitizada, o que ampliaria seu potencial explosivo ao ritmo do multiplicador bancário. Tampouco se trata de uma bolha financeiro-imobiliária acabada (como o sub-prime Americano ou o “crédito-sem-fim” irlandês), uma vez que a migração das poupanças para ativos reais é – ainda – incipiente. O lado ruim é que há gente demais tratando de soprá-la sem considerar que a produtividade total (pelo lado da oferta) e a renda média das famílias depois da tributação e do consumo (pelo lado da demanda) não estão acompanhando o ritmo da festa.

O desafio fundamental a ser enfrentado pelo Governo permanece o mesmo de sempre: é possível crescer de modo sustentável e de maneira acelerada sem aumento da poupança e da produtividade?

A resposta também segue sendo a mesma: sem avanços relevantes na produtividade total dos fatores (única fonte que permitira lograr a expansão contínua do produto potencial sem deterioração fiscal adicional), e no nível de popança das famílias (que permite sustentar a demanda agregada no longo prazo) tudo acaba em “vôo de galinha” ou; ainda pior, em “estouro da bolha”.

O orgulho coletivo impulsionado pela propaganda oficial grandiloqüente em torno do pré-sal, da Copa do Mundo e das Olimpíadas não deve ofuscar a reais fontes dos recentes anos de bons ventos econômicos que o país tem atravessado: a forte demanda externa pelas commodities brasileiras e a elevada liquidez internacional. De fato, a maré subiu para todos. E o "barco Brasil"subiu junto…

Ainda que em seus primórdios de formação, um bolha de preços não é coisa com a qual se brinque. O re-pagamento do socorro oferecido pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional ao Tesouro irlandês custar-lhes-á 15% do PIB à preços correntes pelos próximos 20 anos. As reparações pagas pela Alemanha nazista ao final da 2a. Guerra Mundial saíram mais baratas: 7% do PIB alemão à preços de hoje.

Passado o Carnaval, cabe despir-nos das fantasias e adereços, deixar de lado a vuvuzela - definitivamente incorporada ao blocos de rua do Carnaval carioca - e voltar a considerar com seriedade os desafios microeconômicos da economia brasileira e a necessidade imperiosa de retomar as reformas estruturantes (abandonadas ao fim dos anos 90) para garantir um crescimento seguro e duradouro ao longo da década.

É onde o novo Governo deve investir seu capital político. Todo o resto é "perfumaria"…

Quarta-feira, Setembro 29, 2010

Venezuela: o começo do fim ?

Joseph Napolitan, estrategísta da campanha de JFK à Presidência dos EUA em 1961 – considerados por muitos “o pai do marketing político” - ensina à pagina 35 do seminal “The emotional answer” (“A resposta emocional”, ainda sem tradução para o Português):  "A vitória eleitoral nem sempre se traduz em vitória política. De fato, as mais contundentes vitórias políticas que assisti ocorreram em meio a uma contagem de votos desfavorável. O frenesi liberado pela vitória nas urnas – sempre bem vinda, por certo !!! – costuma ofuscar o significado mais profundo, permanente e politicamente relevante do certame: que lado terá de lidar com expectativas frustradas. (…) Sempre trabalho para vencer politicamente. A vitória eleitoral é uma conseqüência eventual. Lembre-se: as boletas de contagem vão ao fogo. As emoções perduram.”

Estivesse de passeio pelos trópicos neste último domingo, Napolitan observaria o abrir das urnas em Caracas, Venezuela com o discreto e sereno sorriso dos visionários. É certo que não poderia entender completamente o significado de tanto alvoroço e celebração entre os “perdedores” (afinal estamos em terras latino-americanas, o continente que produziu o “realismo fantástico” e as “escolas de samba”…). Mas sentiria, com toda a capacidade inspiratória de suas formidáveis narinas, o cheiro de esperança no ar.

Encerrada a contagem dos votos na eleição geral para a Assembléia Nacional Bolivariana, o governo do comandante Chávez viu suas expectativas frustradas. À despeito das 95 cadeiras conquistadas por seu Partido Socialista Unificado da Venezuela - PSUV (correspondentes a 60% de um total de 165, contra 61 a serem ocupadas pela oposição organizada na Mesa de Unidade Democrática - MUD, e outras 9 para os independentes), a maioria qualificada de 2/3 que permitiria “avançar com as reformas constitucionais que seguiriam levando o país em processo revolucionário permanente, em direção ao Socialismo do Século XXI” escorreu pelo ralo.

Para aprovar qualquer coisa relevante que não signifique “comer pelas beiradas”, Chávez terá de negociar acordos políticos transitórios ou uma agenda mínima permanente com aqueles que costumava designar por “inimigos do povo”, “traidores da Pátria” e “marionetes do império yankee”.

Fiel ao estilo, na noite do dia posterior, “El Comandante” apresentou-se no canal estatal para cantar vitória, assegurando que a revolução segue firme. Nas ruas, nos jornais da manhã e nos canais independentes, o boato que corria solto era outro: haveria clima político para um ”referendo revocatório” de imediato?

A vitória política da oposição só não foi maior porque o sistema político venezuelano – assim como o brasileiro - padece do mal do desequilíbrio de proporcionalidade na representação parlamentar; incutido em sistema distrital do tipo misto. Os distritos de mais baixa densidade populacional situados nas áreas rurais dos Estados menos populosos do país, redutos da esquerda socialista, detém um numero de cadeiras à ocupar muito maior que a proporção do eleitorado local no total de votantes.

Com mapas das votações majoritárias anteriores em mãos, os chavistas instalados no Conselho Nacional Eleitoral re-esquadrinharam os limites dos distritos eleitorais em novembro de 2009 e aprovaram a nova conformação em janeiro de 2010, em tempo hábil para o pleito de domingo. Distritos com maioria de votos opositores foram reduzidos para que detivessem um menor número menor de vagas na Assembléia Nacional ou fusionados com zonas chavistas de modo a produzir uma divisão potencial dos assentos entre governo e oposição. A despeito da manobras, o PSUV obteve 20% menos do número cadeiras que pretendia, perdendo 40% de sua bancada desde a última eleição parlamentar, quando concorreu sem adversário.

De olho nos números que não apareceram nos canais oficiais, o velho Napolitan diria que, "à rigor, à rigor”, desconsiderado os distritos e o sistema de representação proporcional, a vitória oposicionista foi também ”eleitoral”: 52% dos eleitores do país votaram em candidatos da Mesa da Unidade Democrática (MUD), contra 48% de votos a favor do Governo (números estes pouco mais elevados que o nível de aprovação à Chávez imediatamente anterior a eleição). Nunca tantos eleitores foram às urnas expressar-se através do voto: a participação total alcançou inéditos 66,4% em um país onde o voto é facultativo.

O "tropeço" da revolução não limtou-se à lugar geográfico ou à classe social específica. O PSUV enfraqueceu-se mesmo nos redutos chavistas mais radicais da capital Caracas. Em San Cristóbal (capital do Estado de Táchira, junto à fronteira com a Colômbia), onde a classe média e pequenos comerciantes sofrem com epidemia do seqüestro e com a cobrança semanal de proteção (“coima”) perpetrada pelas FARCs instaladas na região com a conivência do governo central, 4 dos 5 deputados eleitos são do bloco opositor.

Creio que Napolitan concordaria quando afirmo que a democracia venezuelana – modelo de estabilidade para os países do continente em outros tempos – voltou aos seus melhores dias.

No ultimo domingo, os venezuelanos trataram de produzir um daqueles pontos de inflexão da História cuja importância somente é possível divisar com clareza anos mais tarde. Resta saber se a esta inflexão, seguirá a queda.

O caminho à frente é longo e acidentado. A boa notícia é que, ao contrário do passado recente, resta apenas a alternativa de seguir adiante, em 3 firmes e decididos passos:

Tarefa primeira: a oposição terá de traduzir a frágil aliança eleitoral (“colada com saliva” segundo o jornal El Universal, desta manhã de segunda) em uma coalizão parlamentar homogênea que ofereça um sistema de pesos e contrapesos efetivos à “revolução sem freios” do Governo. E que mostre-se capaz de resistir ao esforço de cooptação que será implementado pelo Governo quando a poeira baixar.

Segundo, terá de criar - ao longo dos próximos 2 anos - um projeto próprio e um discurso alternativo à miragem do "Socialismo do Século XXI". Tal projeto não poderá afastar-se do combate político à “revolução chavista”, mas fracassará no nascedouro se limitar à definir-se exclusivamente por seu contrário.

Terceiro, haverá de buscar um mensageiro capaz de formular uma visão positiva, ampla, inovadora e generosa do país, situada para além da polarização hoje presente. Alguém capaz de aglutinar forças políticas descontentes de todos os setores políticos e sociais – incluindo dissidentes atuais e futuros do presente modelo. Terá ainda que convencer aos 5,7 milhões de eleitores (quase 32% do total) que permaneceram em casa na última manhã de domingo à caminhar até a urna mais próxima, para manifestar sua adesão à um ourto futuro, de modo ainda mais contundente.

Este nova liderança de oposição terá de construír-se junto aos movimentos sociais que arregimentaram fileiras nos protestos estudantis de 2008, e entusiasmar-lhes, tal qual, novamente. Há de ter a cara, a cor e o sabor de uma nova Venezuela, despida dos refundacionismos tolos de V, VI ou VII Repúblicas. E carisma capaz de fazer sombra ao coronel fanfarrão e sua boina vermelha.

Não é, portanto, tarefa que se deixe para depois. A hora é agora. Domingo pode ter sido apenas um pequeno tropeço. Também pode ser o “começo do fim”…

Terça-feira, Setembro 14, 2010

El Salvador: “marras urbanas”, “pupusas revueltas” e o “Cambio Seguro” de Funes

Acabo de chegar ao aeroporto de San Salvador, torturantes 14 horas depois de deixar a capital de Tio Sam. Minha relação com a American Airlines segue tumultuada: um cancelamento por baixa ocupação e outro por problema mecânico, com direito à conexão adicional até Dallas/Forth Worth para alcançar El Salvador ainda hoje. Em menos de 1 ano, apago as velinhas de meu 21o. contratempo aéreo.

Um sorridente salvadorenho de nome Boris, motorista da representação da OEA no país, recebe-me no desembarque e me entrega à salvo, 50 minutos depois, no suntuoso lobby em estilo neoclássico do Hilton Princess. Como em todas as demais capitais latino-americanas, o aeroporto local fica a léguas da Zona Central e os hotéis têm uma prevalência incômoda do dourado em sua decoração. Aproveito a Jacuzzi do 11o. andar e o menu de travesseiros oferecido pelo Hilton - o mais completo dentre os hotéis de alto padrão. Durmo como um bebê e desperto faceiro no fim da manhã do dia seguinte.

Descubro pelos jornais desta terça-feira nublada e quente (aqui nunca há inverno...) que o país amanhece sem transporte público, com barreiras nas estradas e exército em prontidão. As quarteladas de outrora me vêm à cabeça como fora um mau agouro, mas são os problemas da democracia globalizada que batem à porta.

As “marras” locais – irmandades de jovens desocupados arregimentados por salvadorenhos deportados dos EUA e organizados para delinqüir de modo sistemático – passaram da intimidação à ação: cinco ônibus queimados (dois durante a madrugada, outros três hoje pela manhã) e ameaças de morte distribuídas à esmo na forma de folhetos apócrifos dirigidos à população em geral e aos pequenos comerciantes com negócios nas zonas mais pobres. Na manchete do dia, o chefe da Polícia Civil Nacional assegura que “temos tudo sobre controle”, enquanto centímetros abaixo a Diretora de uma ONG internacional fala em “conexões com o crime organizado transnacional”. O presidente Maurício Funes atira contra a oposição: coisa desta envergadura tem cheiro de “complô político”...

Avanço pelas páginas cheias de vozes dissonantes enquanto desfruto de um verdadeira Festa de Babete centro-americana no restaurante do Hotel, cuja entrada segue agora protegida por militares armados até os dentes: “pollo con lorroco” salvadorenho, acompanhado de "arroz chapim” gualtemateco e “índio viejo” nicaraguense. Peço “pupusas de quezo”, mas Alejandra me informa que estas maravilhas estão somente disponíveis no “desajuno” e já é hora do almoço. No relógio, 11:55hs.

El Salvador é um pequeno e densamente povoado país da América Central, espremido entre Honduras, Guatemala e a imensidão do Pacífico. São quase seis milhões de salvadorenhos, 1/3 dos quais vivendo no exterior, expulsos pelo conflito guerrilheiro dos anos 70, pela estagnação econômica da década seguinte e pelas promessas descumpridas de novos empregos gerados pela radical abertura comercial dez anos mais tarde: 2,8% de tarifa de proteção efetiva média ao final de 1999, a menor de todo o continente.

A diáspora é a única fonte visível de poupança para financiar qualquer projeto possível de acumulação. Todavia, os 18% do PIB em remessas enviadas ao país seguem incapturados por um sistema de bancário nacional quase inexistente e avesso a fomentar o investimento produtivo. Tudo que entra segue para o consumo das famílias; o que explica, ao menos em parte, os indicadores algo razoáveis de pobreza e desigualdade do país.

O que havia de capacidade industrial instalada nos anos 50-60 foi destruído pela guerra ou aproveitado como “maquilas” de produtos americanos e europeus que assim chegam ao mercado consumidor centro-americano livres de taxas, distribuídos por meio das excelentes estradas que tem o país.

Estamos aqui para reuniões de alto nível com seis Ministérios e agências governamentais previamente identificados com pontos focais para o desenho conjunto de uma “estratégia de apoyo-país” a ser oferecida pela OEA a El Salvador, com base em seu "Plan Quinquenal de Desarrollo 2010-2015 ", resultado de um esforço nacional notável de buscar alguma forma de planejamento estratégico para "reformar" o que por aqui nunca se viu: a ação estatal em favor dos que dela precisam.

A dicotomia tola “Estado vs. Mercado” foi por anos impulsionada pela polarização política entre “(...) estes comunistas vermelhos que comem criancinhas (...)”, um mosaico improvável de movimentos e partidos de esquerda organizados sob as asas da FMNL; e pelos "(...) assassinos direitistas conservadores vendidos aos Estados Unidos (...)", protegidos pelo então governo de partido único da ARENA. Não surpreende que, em meio à auto-desintegração dos partidos políticos tradicionais em diversos países latino-americanos, El Salvador siga com um sistema político mais marcado pelo embate das agremiações partidárias sob as quais se organizaram as forças em conflito do que pelas bravatas de algum caudilho autoritário de ocasião.

Em meio às guaritas de controle, gabinetes decorados com a onipresente foto presidencial, cartões em baixo relevo francês e rapapés protocolares com Ministros e Vice-Ministros, o dia passa agradável.

Poucas horas e muitos cafés depois, é possível divisar o tamanho da empreitada que nos espera: apesar dos imensos avanços recentes, falta tudo. 30% dos salvadorenhos são indocumentados, 42% das prefeituras não têm sequer um único computador e o governo central enfrenta um déficit estrutural crônico: iria à bancarrota não fossem os dólares que chegam do exterior. Nem as remessas, nem os milhões de dólares e euros da ajuda internacional - não há agência multilateral que não tenha escritório por aqui - conseguiram arrancar o país da "lanterninha" do crescimento centro-americano na primeira metade da década.

Pior (ou melhor, ainda não sei ao certo...): a chegada ao poder do primeiro governo de esquerda em mais de 20 anos destapou a panela de pressão da demanda reprimida por diretos sociais universalizados que custará uma fortuna que o país não tem…

O nó central aqui é como divisar uma estratégia para promover uma transformação produtiva que permita o Governo capturar impostos para financiar de modo permanente o Sistema de Proteção Social Universal pretendido e fomentar o investimento produtivo, na ausência de um mecanismo de acumulação anterior. Minha aposta inicial é a bancarização das reservas para a capitalização de um fundo enfocado no fomento às PMEs e ao empreendedorismo local. Mas no tal PQD, nem uma linha…

Pego o último vôo da AA para Miami; desta vez sem maiores sobressaltos. Equilibro sobre a mesinha retrátil do já apertadíssimo 737-800 exatas três dúzias de folhas amarelas cheias de rabiscos inescrutáveis à olho nu, o MacbookPro velho de guerra e uma dose de Jonnie Walker Red Lable displicentemente despejada pela comissária em um copo plástico descartável por abusivos sete dólares pagos com American Express à 11 mil pés de altura. O tipo de óculos sentado ao lado boceja e abre o Washington Post.

Sinto que estou à caminho de casa... Em duas semanas tem mais. Prometo fotos…e idéias que justifiquem o salário que me pagam em Washington-DC. Bah !!!