terça-feira, junho 18, 2013

Sobre ontem à noite


12 apreciações indignadas de um cético incorrgível sobre as esperanças, o caos e o futuro que teima em não chegar.


Sei não... Já fui jovem. Já fui às ruas pedir eleições, fechar supermercados, derrubar presidentes, pedir paz, colocar gente na cadeia. 1984, 1987, 1992, 1998 e 2004, entre as que me lembro de memória. Os que me conhecem de perto sabem que as camisetas rabiscadas com pilot colorido dos tempos de juventude têm lugar de destaque nas paredes do corredor lá de casa.  

Ocorre que - com o passar dos anos e com a distância do país - tornei-me, antes de tudo, um cético incorrgível. Sem abandonar o amor do filho pela Pátria mãe gentil, apreendi a duvidar deste gigante que vez por outra desperta de seu berço esplêndido, titubeia, olha o despertador, dá uma viradinha e escolhe não sair da cama. Triste, eu sei... 

Aproveitemos, porém a noite prenhe de despertares, surpresas e espasmos - que espero, sigam democráticos. Mandemos às favas as análises imparciais, o ceticismo erudito e a moderação blasé dos intelectuais de biblioteca.

Ás favas - todos juntos e de uma só vez - com o meu lado cauteloso, de palavras medidas, de frases bem escritas, de parágrafos concatenados. Abramos alas, pois, às verdades circunstanciadas, protestos desfocados, idéias estapafúrdias e acusações inconseqüentes. Mergulhemos de ponta, de barriga - ou mesmo de ladinho - no torvelinho de demandas e sentidos que emana das avenidas deste nosso Brasilzão e tratemos de ver o que este cético incorrigível acha que apreendeu - ou desaprendeu; afinal ninguém sabe mais nada ao certo - na noite de ontem: 

[01] Não se engane: assim como a UNE, o MPL é um movimento 100% chapa-branca. Recebeu dinheiro do Governo Federal, da Petrobrás e tem em suas fileiras candangas jovens universitários lotados na Presidência da República. Aí reside o motivo da cara de paisagem do doutor Gilberto Carvalho. O que o Ministro não entende é como é que desta fogueirinha saiu todo este “incêndio amigo”.

[02] É certo que os brutos da PM de São Paulo prestaram-se alegremente ao papel de estopim. Mas também é certo que a ilustrada imprensa paulista tratou de acender-lhes o pavio. “Jovens predispostos à violência”, “ideologia pseudo-revolucionária”, “retomar a Paulista” – isto só para ficar entre os vocábulos publicáveis publicados em editoriais da Folha e do Estadão. Quando estilhaços e olhos-roxos  alcançaram as redações, o jornalismo beligerante foi para o vinagre e a narrativa mudou-se daqui para alhures, ao sabor do vento que bufava o gás pimenta. A julgar pelos olhares incrédulos de jornalistas e comentaristas especializados enquanto o Congresso Nacional era invadido pela turba de descamisados, a ingrata não deixou o endereço novo.       

[03] Lembrei que indignar-se é coisa fácil: o livreto de Stéphane Hessel vendeu mais de 100 mil cópias desde o 15M nas ruas de Madrid (a despeito do meu péssimo francês, eu mesmo comprei um). Comprometer-se é que não parece ser lá "esta Coca-Cola toda" (nota : o segundo livreto do doutor Hessel, intitulado “Compromete-os!”, nem chegou aos 3 mil). A verdade é que esta coisa chamada real politik – a tal arte de construir compromissos com o possível por meio de num balé de dois passos à frente e um para trás – cansa, dá muito trabalho e não parece ser coisa de gente do bem. Gostemos ou não, querido amigo da Candelária, o sistema existe e somos parte dele: a parte que fica por fora. Para reformá-lo é preciso meter-se por dentro, pedindo voto prá quem presta, cercando o seu deputado na rua, ou mesmo botando essa sua cara pintada dentro daquela caixinha branca com um botão verde de "confirme". Fotos de passeata colorem o timeline do Facebook, ajudam a lembrar o nome daquela gatinha de lenço amarelo é só. [Nota: darão trabalho adicional à turma de arapongas do Obama, mas isto é uma estória para outros carnavais...] 

[04] Como costuma ser por estas bandas, vi também disposição demais e responsabilidade de menos. Estudantes do MPL brincando com uma caixa de Pandora que reconhecem não poder controlar. Coronéis comandando balas de borracha cuja direção não podem controlar. Manifestantes pacíficos mobilizando manifestantes alienígenas “com quem não temos nada que ver”. Não é surpresa que – de súbito, no vazio do “não é comigo" – punks, anarquistas e outros exotismos violentos instalaram-se no controle e sintaram-se livres para estropiar – de modo parcial, mas eloquente – aquele momento feliz.  

[05] Vandalismo é comportamento; não condição. Na quarta, a Paulista estava cheia destes arruaceiros de ocasião. Ontem à noite, acovardaram-se em meio ao mar de camisas brancas – com previu, em 1976, Elisabeth Noelle-Neumann no excelente “The Spiral of Silence”.  

[06] Apreendi de novo - porque gosto de Sex Pistols - que punk que é punk não usa branco, nem ouve pancadão – a trilha sonora que animava a dança ao redor da fogueira e os gritos de guerra ao redor do Paço. O que se viu no Rio foi senão mais um capítulo de nossa mais conhecida tradição cultural, cantada por Fernanda Abreu: a malemolência do malandro-agulha carioca (que há muito já abandonou a roda de samba em favor do proibidão) alimentando a luta permanente entre a beleza (que se viu na Cinelândia) e o caos (nos arredores da ALERJ). 

[07] Conto-lhes que tomei um curso rápido sobre pobreza urbana para a classe média tradicional, ministrado pelo Datafolha: (a) pobre que é pobre não quebra ônibus porque precisa voltar prá casa, (b) pobre que é pobre não se mete em conflito com PM porque a bala que bem conhece não é a de borracha, (c) pobre que é pobre vai a protesto vender mate e refri porque Dona Esperança não enche barriga, nem paga o aluguel do barraco e (d) pobre-pobre – aquele de maré, maré, maré – não se dá ao luxo de sentimentos de insatisfação ou mal-estar difuso: isto é coisa de intelectual. Não, senhores, a Bastilha não é aqui - ainda que a coisa soe próxima à “Brasília” para um fanho. O problema é que fazer esta coisa chegar lá nos fundões do Brasil para desarticular o clientelismo que mantém este Governo de pé não é tão simples assim.   

[08] Não é preciso ler Manuel Castels para saber que as redes mobilizam, ressonam e contagiam – mas não promovem consensos, nem assignam responsabilidades. Triste dizer, mas trata-se de uma verdade histórica: sem liderança de carne, osso e alguma dose de aquilo roxo, o “bonito de ver” não vai a lugar algum. E o “feio de ver” tampouco vai ver o sol nascer quadrado. Para passar da rua à mesa, é preciso achar quem tenha peito de segurar a batata quente.  

[09] Os personagens de sempre - e como sempre - vão contemporizar, saudar a juventude e a celebrar a vitalidade da já não tão jovem democracia brasileira. Convidarão um MPL mais ambicioso para uma vaga de deputado, reduzirão uma tarifa aqui, subirão um imposto ali e carruagem seguirá o rumo ao quartel de Abrantes. Triste de novo, eu sei. Nada por nada, ao menos esta turma vai olhar para os dois lados antes de atravessar a rua.

[10] Aprendi o que já sabia: Lula é um oportunista. Dilma não sabe o que dizer – novidade que não é de hoje. Haddad porta-se como uma barata tonta que quer ficar – ao custo de R$ 6 bi – bem na foto. Sergio Cabral permanece em Paris e Eduardo Paes fez de conta que tudo se passava no Piauí.

[11] Gosto dele e tenho muitos amigos por lá, mas FHC se não gosta que alunos da USP sejam chamados de “arruaceiros” quando depredam o patrimônio público: reitoria, estação de trem, agencia de banco – tanto faz. Como na França, estão fazendo a revolução cultural tupiniquim. Choque da PM só para desalojar “sem-terras” que invadem sítios em Ibiúna. Coisa de gente diferenciada.

[12] Geraldo Alckmin errou, mas não teve compromisso com o erro. Conversou, corrigiu-se, comprometeu-se. Nem apostou no “quanto pior melhor” (coisa do PSTU), nem saiu por aí dizendo que é tudo culpa do PT. Coisa de gente séria. Gosto dele ainda mais. 

Por fim, duas confissões

Confesso que - ao considerar uma crise mais profunda no sistema -  me bate o receio da chegada triunfal de uma salvador providencial. Não, amigos, não sou um convertido. Refiro-me a um “outsider” vigoroso que surja montado em seu cavalo branco figurado distribuindo  benesses da Viúva; livrando-nos pela via da “vontade política” dos incômodos que nos impõe a aritmética e lutando em favor do povo “contra isto tudo que está aí”...

Confesso também que sigo na esperança – a primeira que falseia, mas a última que morre, esta danada !!! – de um dia descobrir-me um cético idiota ao notar que não passa muito das seis da manhã e o gigante que eu creía preguiçoso já preparou o café, leu os jornais e está de saída para deixar seus filhos na escola.  

Na dúvida, vou deixando a camisa branca passada sobre o sofá da sala e o título de eleitor dentro da carteira. Afinal, 2014 já tá virando a esquina e suspeito que será na silêncio da  cabine de votação que tudo isto encontrará  sentido.  

segunda-feira, março 07, 2011

A bolha brasileira


O que a farra fiscal de Lula e o ajuste de Dilma tem que ver com o meu côco?


Visto de cima, o Rio de Janeiro de São Sebastião segue impávido em seu reinado supremo dentre as mais belas paisagens naturais do planeta. Da janela do 767-300, o amanhecer multicolor deste domingo na Cidade Maravilhosa me faz lembrar os quadros de Romero Britto e as enormes sacolas de compras que vi circulando pelos shoppings e pelo aeroporto internacional de uma Miami lotada de brasileiros.

Retornar a casa é sempre uma alegria. Despir-me de sobretudos e cachecóis, deixar para trás o vento cortante e a paisagem árida do inverno em Washington-DC e mergulhar no calor úmido com cheiro de maresia e sol alaranjado das praias da Zona Sul carioca é como viver o sonho de Alice: “vontade zero” de deixar o País das Maravilhas e pegar o vôo de volta aos domínios de Tio Sam no próximo sábado à noite.

Desfrutando cores, cheiros e sabores da minha terra, nem percebo quando Edilson, baiano de Vitória da Conquista com 30 anos de Rio, encosta seu Meriva estalando de novo – comprado em 50 suaves prestações – na porta do hotel, e já vai esticando o braço para trás com meu recibo em mãos: 65 dólares pela corrida do Galeão à Ipanema ??!! Acho caro. Muito caro…

São 08h30min da manhã, mas o calor é senegalesco. Enfrento um check-in demorado que lembraria uma daquelas filas do INPS das antigas, povoadas de velinhos desvalidos e burocratas carrancudos, não fosse pelo concierge de ares europeus metido em um engomado traje preto de botões dourados. Antonio me recebe com um sorriso de chinês e gentileza britânica, desculpando-se pela demora e justificando-se na superlotação: 98% de ocupação em toda a rede, com diárias de apartamento tipo standard a 350 dólares, pagas adiantado.

Entro esbaforido no quarto simplesinho e agarro a água mineral colocada sobre a pia do banheiro. Mato a sede em quatro generosos goles, mas sofro um forte engasgo já no finalzinho: a etiqueta tipo “colarinho” marca incríveis 19,00 reais por 200 ml de Acqua Panna em garrafa de plástica.

Chinelo, bermuda, camiseta. 2 minutos mais e aqui estou, 22 andares abaixo, do outro lado na rua, em pé no calçadão, tratando de selecionar o côco mais gelado disponível no quiosque do Seu Milton – um vascaíno fanático com quem trato de manter relações cordiais apesar da enorme Cruz de Malta que decora “do chão ao teto” seu micro-estabelecimento. Sou vítima de um assalto: R$ 3,50 por um côco ainda meio verde. Na qualidade de operador monopolista da cadeia de suprimento das tais bolotas verdes para a rede hoteleira da vizinhança, Seu Milton logo avisa que “lá dentro, à beira da piscina, doítore, a coisa não sai por menos de 9 pratas”.

Sacolas de compra aos borbotões, hotéis de quartos amarelados superlotados, água mineral à preço de vinho francês, corridas de táxi equivalentes à passagens de avião em companhias “low-cost” e côco gelado à preços de refeição executiva? Como não estou em Londres, a ficha cai rápido e o óbvio ululante se instala: a bolha brasileira está evidente.

Desde que saí daqui, em maio de 2008, o real se valorizou quase 30% em relação ao dólar. Para um diferencial de inflação acumulada entre Brasil e EUA em torno de 5%, dá 25% ao ano em termos reais. O efeito adverso do câmbio sobrevalorizado não fez nem cosquinha no desempenho das exportações brasileiras, impulsionadas por bilhões de chineses que seguem indo às compras, sustentando o ciclo positivo nos preços das principais commodities internacionais mesmo depois da crise.

O jornal da manhã desta terça-feira anuncia que o COPOM puxou a taxa básica SELIC ainda mais para cima – agora em 11,75% em termos nominais – para conter o repique inflacionário dos dois últimos meses. Suspeito do efeito pretendido: com o BNDES subsidiando a taxa para o investimento produtivo das empresas (pelo lado da oferta) e generosidade do crédito consignado tratando viabilizar o encaixe de novas parcelas de financiamento no orçamento doméstico das classes C e D (pelo lado da demanda); o ritmo do crescimento não arrefece. Com 6,3% dos 7,5% de incremento no PIB de 2010 explicados pelo consumo das famílias, o Governo vai precisando, na margem, de cada vez mais taxa para cumprir com o esforço de re-calibrar as expectativas futuras e manter a inflação na meta.

Com carne na mesa, carro zero na garagem e eletro-domésticos renovados na cozinha (agora no mais moderno padrão aço-inox); a nova classe média deixa de sonhar com o “puxadinho” e volta a fazer às contas com um olho na sala ampla e ventilada - para acomodar as novas polegadas da TV de tela plana - e outro na casa própria. Em dois anos, o preço médio para aluguéis de imóveis nas principais capitais brasileiras experimentou estratosféricos 95% de elevação (88% no Recife, 97% em São Paulo, 157% no Rio de Janeiro). No Estado de São Paulo, os novos lançamentos de unidades residenciais de dois quartos incrementaram-se em 28% no último mês de novembro de 2010, se comparados com o mesmo mês do ano anterior (dados do SECOVI-SP).

Se os preços sobem demais por aqui, cartões de crédito internacionais vão de passeio à Miami em oito suaves prestações, ou desfrutam os prazeres do consumo globalizado via Internet: entre 2009 e 2010, o gasto total de brasileiros no Exterior aumentou 28% em dólares. No mesmo período, a relação produto nacional/produto importado na cesta de consumo da classe média saltou de 80%-20% para 68%-32% !! Quem assistiu desorientado a débâcle da economia mexicana em 1982 sabe à que fenômeno de miopia coletiva me refiro: pelo lado da economia real, a bolha segue inflando-se, soprada pelo consumo das famílias, transbordando para os preços dos ativos reais.

Pelo lado do "papelório", a taxa básica de juros em trajetória lunar segue tonificando como nunca a entrada de capitais financeiros interessados nos ganhos de operações de arbitragem entre juros pagos pela moeda brasileira e as taxas internacionais bem mais modestas. Com os “T-Bonds” yankees (títulos do Tesouro americano com maturidade de 30 anos) na marca dos 119,05 pontos – um dos "vales" mais profundos da série história nos últimos cinco anos – somam-se aos costumeiros capitais privados (“hedge funds, “pension funds” e toda uma miríade de veículos de investimento “off-market”), os poderosos “fundos soberanos”. Os espetaculares ganhos projetados com operações lastreadas em títulos do Tesouro Nacional – ainda que os contratos de “cupom cambial” para as operações de "carry trade" não sigam tão atrativos quanto antes – explicam, ao menos em parte, uma Bovespa barata (pouco abaixo dos 70.000 pontos), mesmo em tempos de IPOs bilionários, crescimento do PIB corrente acima dos 5% ao ano e Eike Batista (de celular na cintura...) na capa da Forbes.

Vale lembrar que, se por um lado é certo que o influxo de capitais voláteis ajuda a fechar o balanço de pagamentos e sua esterilização – quando feita de modo competente – reforça as reservas internacionais do Banco Central; por outro amplia o risco da parada súbita (“sudden-stop”) e da reversão dos fluxos, em caso de mudanças no cenário externo e/ou da perda de confiança nos fundamentos do equilíbrio fiscal doméstico. Além disto, os influxos encurtam o perfil da dívida pública federal externa (DPFex), impõem um enorme custo adicional sobre a rolagem da dívida pública interna (16,65 bilhões em dezembro ultimo, quase 30% do ajuste fiscal de R$ 50 bilhões, recentemente anunciado pelo Governo), comprometendo de modo ainda mais severo a capacidade de investimento do Governo Federal. Impactam ainda formação de preços nos mercados de câmbio para exportação, na direção de uma taxa nada atrativa para os produtores nacionais especializados em commodities, manufaturas simples e produtos industriais semi-acabados, que enfrentam um padrão de competição internacional baseada primordialmente “em preços”.

Como em todas as bolhas também sopradas desde afora; por ora, tudo segue bem no setor externo. Com o “pibão” de 7,5% em 2010, é natural que a relação Dívida/PIB (principal indicador que orienta a avaliação dos investidores internacionais sobre a capacidade de re-pagamento de obrigações internacionais de um país emergente) siga sua trajetória em queda livre. Todavia, o tsunami financeiro que atingiu cinco das principais economias emergentes do continente asiático (Indonésia, Malásia, Filipinas, Coréia do Sul e Tailândia) no fim dos anos 90 ajuda a lembrar que todo o cuidado é pouco em matéria de financiamento externo. Em um período de apenas 11 meses, os então celebrados “novos tigres asiáticos” experimentaram uma reversão da ordem de 105 bilhões de dólares em capitais privados voláteis por conta de desequilíbrios no setor doméstico.

A compatibilização entre equilíbrio interno e externo não é tarefa que se deixe para depois: pelo lado do papelório, a bolha segue inflando-se, soprada pelo influxo de capitais financeiros de curto-prazo.

Nada disto seria tão grave se, no âmbito doméstico, ao crescimento do produto corrente correspondesse equivalente incremento do produto potencial. Mas ocorre o reverso: a formação bruta de capital (FBK) segue estagnada ao redor de 20% com crescimento discreto tanto do investimento público (4,1% em 2009 para 5,1% em 2010, puxados pelas empresas estatais) quanto do privado (12,5% em 2009 para 13,6% em 2010). Se, durante muitos anos, o montante de 25% PIB de investimento total para um crescimento desejado de 5% ao anao foi o número cabalístico presente em nove em cada dez cartas de conjuntura assinadas por economistas estrelados, o novo “pibão” requereria, no mínimo, algo em torno de 30% para sustentar-se no médio prazo. Em que pese o corte de 50 bilhões anunciado pelo Governo, o número segue sendo um miragem distante: seria necessário um esforço fiscal oito vezes maior, impensável sem a retomada da agenda de reformas estruturantes que afetem as chamadas” despesas incompressíveis” (privilégios fiscais e tributários adquiridos, pensões generosas e gastos vinculados), ao estilo daquelas  implementadas no primeiro Governo FHC.

O que era cinza torna-se negro, quando se observa com cuidado os números relativos à produtividade total dos fatores (PTF). Desde o ajuste industrial dos anos 90, a PTF vem “andando de lado” (com pequenas elevações e contrações ao redor de 0,3%-0,6%), sem contribuições incrementais relevantes para um aumento do estoque líquido de capital disponível. Vai se, portanto, produzindo um padrão de crescimento adicto de enormes somas de novos capitais públicos (de modo geral, indisponíveis), privados (sempre escassos) e/ou externos (por natureza desconfiados) para realizar novos investimentos em capacidade produtiva e em infra-estrutura que dêem conta da elevada absorção interna.

Em resumo, o Governo está metido em uma armadilha onde o conjunto de preços básicos da economia (a saber; juros, salários e aluguéis – para além da taxa de câmbio) que remuneram os fatores produtivos renováveis (a saber; capital, trabalho e propriedade imóvel) seguem aumentando de modo sensível e desordenado, descolando-se dos fundamentos microeconômicos que lançariam as bases de um crescimento acelerado e sustentado. O resultado imediato é um crescimento espúrio (por arriscado) e episódico (por insustentável) como o atual, baseado em “fazer mais”, e não em “fazer melhor”.

A boa noticia é que a nascente “bolha brasileira” ainda não foi securitizada, o que ampliaria seu potencial explosivo ao ritmo do multiplicador bancário. Tampouco se trata de uma bolha financeiro-imobiliária acabada (como o sub-prime Americano ou o “crédito-sem-fim” irlandês), uma vez que a migração das poupanças para ativos reais é – ainda – incipiente. O lado ruim é que há gente demais tratando de soprá-la sem considerar que a produtividade total (pelo lado da oferta) e a renda média das famílias depois da tributação e do consumo (pelo lado da demanda) não estão acompanhando o ritmo da festa.

O desafio fundamental a ser enfrentado pelo Governo permanece o mesmo de sempre: é possível crescer de modo sustentável e de maneira acelerada sem aumento da poupança e da produtividade?

A resposta também segue sendo a mesma: sem avanços relevantes na produtividade total dos fatores (única fonte que permitira lograr a expansão contínua do produto potencial sem deterioração fiscal adicional), e no nível de popança das famílias (que permite sustentar a demanda agregada no longo prazo) tudo acaba em “vôo de galinha” ou; ainda pior, em “estouro da bolha”.

O orgulho coletivo impulsionado pela propaganda oficial grandiloqüente em torno do pré-sal, da Copa do Mundo e das Olimpíadas não deve ofuscar a reais fontes dos recentes anos de bons ventos econômicos que o país tem atravessado: a forte demanda externa pelas commodities brasileiras e a elevada liquidez internacional. De fato, a maré subiu para todos. E o "barco Brasil"subiu junto…

Ainda que em seus primórdios de formação, um bolha de preços não é coisa com a qual se brinque. O re-pagamento do socorro oferecido pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional ao Tesouro irlandês custar-lhes-á 15% do PIB à preços correntes pelos próximos 20 anos. As reparações pagas pela Alemanha nazista ao final da 2a. Guerra Mundial saíram mais baratas: 7% do PIB alemão à preços de hoje.

Passado o Carnaval, cabe despir-nos das fantasias e adereços, deixar de lado a vuvuzela - definitivamente incorporada ao blocos de rua do Carnaval carioca - e voltar a considerar com seriedade os desafios microeconômicos da economia brasileira e a necessidade imperiosa de retomar as reformas estruturantes (abandonadas ao fim dos anos 90) para garantir um crescimento seguro e duradouro ao longo da década.

É onde o novo Governo deve investir seu capital político. Todo o resto é "perfumaria"…

quarta-feira, setembro 29, 2010

Venezuela: o começo do fim ?

Joseph Napolitan, estrategísta da campanha de JFK à Presidência dos EUA em 1961 – considerados por muitos “o pai do marketing político” - ensina à pagina 35 do seminal “The emotional answer” (“A resposta emocional”, ainda sem tradução para o Português):  "A vitória eleitoral nem sempre se traduz em vitória política. De fato, as mais contundentes vitórias políticas que assisti ocorreram em meio a uma contagem de votos desfavorável. O frenesi liberado pela vitória nas urnas – sempre bem vinda, por certo !!! – costuma ofuscar o significado mais profundo, permanente e politicamente relevante do certame: que lado terá de lidar com expectativas frustradas. (…) Sempre trabalho para vencer politicamente. A vitória eleitoral é uma conseqüência eventual. Lembre-se: as boletas de contagem vão ao fogo. As emoções perduram.”

Estivesse de passeio pelos trópicos neste último domingo, Napolitan observaria o abrir das urnas em Caracas, Venezuela com o discreto e sereno sorriso dos visionários. É certo que não poderia entender completamente o significado de tanto alvoroço e celebração entre os “perdedores” (afinal estamos em terras latino-americanas, o continente que produziu o “realismo fantástico” e as “escolas de samba”…). Mas sentiria, com toda a capacidade inspiratória de suas formidáveis narinas, o cheiro de esperança no ar.

Encerrada a contagem dos votos na eleição geral para a Assembléia Nacional Bolivariana, o governo do comandante Chávez viu suas expectativas frustradas. À despeito das 95 cadeiras conquistadas por seu Partido Socialista Unificado da Venezuela - PSUV (correspondentes a 60% de um total de 165, contra 61 a serem ocupadas pela oposição organizada na Mesa de Unidade Democrática - MUD, e outras 9 para os independentes), a maioria qualificada de 2/3 que permitiria “avançar com as reformas constitucionais que seguiriam levando o país em processo revolucionário permanente, em direção ao Socialismo do Século XXI” escorreu pelo ralo.

Para aprovar qualquer coisa relevante que não signifique “comer pelas beiradas”, Chávez terá de negociar acordos políticos transitórios ou uma agenda mínima permanente com aqueles que costumava designar por “inimigos do povo”, “traidores da Pátria” e “marionetes do império yankee”.

Fiel ao estilo, na noite do dia posterior, “El Comandante” apresentou-se no canal estatal para cantar vitória, assegurando que a revolução segue firme. Nas ruas, nos jornais da manhã e nos canais independentes, o boato que corria solto era outro: haveria clima político para um ”referendo revocatório” de imediato?

A vitória política da oposição só não foi maior porque o sistema político venezuelano – assim como o brasileiro - padece do mal do desequilíbrio de proporcionalidade na representação parlamentar; incutido em sistema distrital do tipo misto. Os distritos de mais baixa densidade populacional situados nas áreas rurais dos Estados menos populosos do país, redutos da esquerda socialista, detém um numero de cadeiras à ocupar muito maior que a proporção do eleitorado local no total de votantes.

Com mapas das votações majoritárias anteriores em mãos, os chavistas instalados no Conselho Nacional Eleitoral re-esquadrinharam os limites dos distritos eleitorais em novembro de 2009 e aprovaram a nova conformação em janeiro de 2010, em tempo hábil para o pleito de domingo. Distritos com maioria de votos opositores foram reduzidos para que detivessem um menor número menor de vagas na Assembléia Nacional ou fusionados com zonas chavistas de modo a produzir uma divisão potencial dos assentos entre governo e oposição. A despeito da manobras, o PSUV obteve 20% menos do número cadeiras que pretendia, perdendo 40% de sua bancada desde a última eleição parlamentar, quando concorreu sem adversário.

De olho nos números que não apareceram nos canais oficiais, o velho Napolitan diria que, "à rigor, à rigor”, desconsiderado os distritos e o sistema de representação proporcional, a vitória oposicionista foi também ”eleitoral”: 52% dos eleitores do país votaram em candidatos da Mesa da Unidade Democrática (MUD), contra 48% de votos a favor do Governo (números estes pouco mais elevados que o nível de aprovação à Chávez imediatamente anterior a eleição). Nunca tantos eleitores foram às urnas expressar-se através do voto: a participação total alcançou inéditos 66,4% em um país onde o voto é facultativo.

O "tropeço" da revolução não limtou-se à lugar geográfico ou à classe social específica. O PSUV enfraqueceu-se mesmo nos redutos chavistas mais radicais da capital Caracas. Em San Cristóbal (capital do Estado de Táchira, junto à fronteira com a Colômbia), onde a classe média e pequenos comerciantes sofrem com epidemia do seqüestro e com a cobrança semanal de proteção (“coima”) perpetrada pelas FARCs instaladas na região com a conivência do governo central, 4 dos 5 deputados eleitos são do bloco opositor.

Creio que Napolitan concordaria quando afirmo que a democracia venezuelana – modelo de estabilidade para os países do continente em outros tempos – voltou aos seus melhores dias.

No ultimo domingo, os venezuelanos trataram de produzir um daqueles pontos de inflexão da História cuja importância somente é possível divisar com clareza anos mais tarde. Resta saber se a esta inflexão, seguirá a queda.

O caminho à frente é longo e acidentado. A boa notícia é que, ao contrário do passado recente, resta apenas a alternativa de seguir adiante, em 3 firmes e decididos passos:

Tarefa primeira: a oposição terá de traduzir a frágil aliança eleitoral (“colada com saliva” segundo o jornal El Universal, desta manhã de segunda) em uma coalizão parlamentar homogênea que ofereça um sistema de pesos e contrapesos efetivos à “revolução sem freios” do Governo. E que mostre-se capaz de resistir ao esforço de cooptação que será implementado pelo Governo quando a poeira baixar.

Segundo, terá de criar - ao longo dos próximos 2 anos - um projeto próprio e um discurso alternativo à miragem do "Socialismo do Século XXI". Tal projeto não poderá afastar-se do combate político à “revolução chavista”, mas fracassará no nascedouro se limitar à definir-se exclusivamente por seu contrário.

Terceiro, haverá de buscar um mensageiro capaz de formular uma visão positiva, ampla, inovadora e generosa do país, situada para além da polarização hoje presente. Alguém capaz de aglutinar forças políticas descontentes de todos os setores políticos e sociais – incluindo dissidentes atuais e futuros do presente modelo. Terá ainda que convencer aos 5,7 milhões de eleitores (quase 32% do total) que permaneceram em casa na última manhã de domingo à caminhar até a urna mais próxima, para manifestar sua adesão à um ourto futuro, de modo ainda mais contundente.

Este nova liderança de oposição terá de construír-se junto aos movimentos sociais que arregimentaram fileiras nos protestos estudantis de 2008, e entusiasmar-lhes, tal qual, novamente. Há de ter a cara, a cor e o sabor de uma nova Venezuela, despida dos refundacionismos tolos de V, VI ou VII Repúblicas. E carisma capaz de fazer sombra ao coronel fanfarrão e sua boina vermelha.

Não é, portanto, tarefa que se deixe para depois. A hora é agora. Domingo pode ter sido apenas um pequeno tropeço. Também pode ser o “começo do fim”…